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terça-feira, janeiro 30, 2007

Faz hoje um ano V

Também há quem lhe chame o prato do dia de ontem. Alguns pratos até me sabem melhor depois... Há coisa de um ano saiu o seguinte escrito. Considerem-no partilhado.



Pôr a mão no bolso


Temos o estranho feitio de só dar a importância às coisas depois de as maturarmos perdidas. Foi assim que aconteceu com o meu avô, foi assim que aconteceu com a minha amiga. Não que tenha nisso alguma culpa, mas só depois de se porem num nível a que não mais é possivel ceder reparei a falta que me faziam. O conforto em saber que estavam lá.
Às vezes temos ouro nos bolsos e não sabemos.

Às vezes sabemos e não podemos desfrutar da riqueza que possuímos. Não por ter os olhos vendados: o facto de termos os olhos cerrados não significa que não consigamos ver para lá do muro. Nem por estar de nariz tapado: a constipação mais mental imaginável não nos impede de saber que situações «não nos cheiram», nem nos impede de sentir aquele cheiro confortável de quem nos facilita a vida só com um sorriso. Nem por causa da boca fechada: as palavras servem de muito pouco até, no que diz respeito à constatação do ouro que nos faz falta, há tanta coisa que nos denuncia mais do que as palavras: o telefonema que se evita, o reler e reler da mensagem que não houve coragem para mandar, o rodar da cabeça para depois não conseguir expulsar os pensamentos...
Às vezes não podemos desfrutar porque... Bem, talvez não tenhamos que saber a razão.

Talvez um anúncio: Pepita dourada procura garimpeiro de fé.
(Talvez só com fé mesmo...)

quarta-feira, outubro 25, 2006

Faz hoje um ano IV

Um desejo de uso caseiro

Todos os electrodomésticos costumam ter dois anos de garantia pelo menos. É o mínimo. Comprei há pouco tempo um desejo electrodoméstico, que é como quem diz, um desejo de uso caseiro, que funciona a energia eléctrica.

Pois bem... o circuito em volta tem tido muito pouca energia e eu não tenho andado nada eléctrica. Penso que de vez em quando até há cortes de corrente nesta zona, pelo que o meu desejo de uso caseiro não se concretiza. Tenho em crer que estou no meu direito de ir à loja e trocá-lo por outro, Talvez um que dependa apenas de mim, sei lá... Um eólico não, que só funcionaria enquanto durasse o Outono e o chão não estivesse transformado em roupeiro de árvores. Um hidráulico iria parar assim que acabasse o pão de ló e o coelhinho da Páscoa regressasse ao país dos ovos de chocolate. Se dependesse da energia solar o meu desejo extinguir-se-ia quando o frio não me permitisse gozar o cheiro a maresia. Qualquer coisa a pilhas teria, muito embora fosse de fácil substituição, pouca duração e não me interessa tanta oscilação de energia. Acho que a melhor solução seria um desejo que trabalhasse como o meu relógio, pela pulsação. Um desejo adaptado à cadência, que a aumenta e a sonoriza com os vislumbres de realização. Um desejo bombeado ao ritmo das pressas e dos vagares, um desejo que faça o granito romper até ficar macio como o mármore da caixa de todos os sonhos que, no fim, o vai guardar cumprido.

Vou à loja, o meu desejo é urgente e eu não posso sair mal servida nesta compra.

terça-feira, outubro 10, 2006

Faz hoje um ano III


Mais um episódio de comida requentada, porque quem manda aqui sou eu.
Conta-me, Grimm

Não tenho, no meu rol de pares de pombos conhecidos, um único exemplo que me cause inveja. Não que não se dêem bem, apenas o bem que se dão não justifica a privação dos amigos, da conversa com os amigos, do café com os amigos, do cinema com os amigos, dos copos com os amigos e mesmo da companhia dos amigos que, por mais assexuada que seja, causa sempre algum incómodo ao parceiro oficial de actividades hormonais.

Tive uma infância normal, acho. Os meus pais discutiam como os pais dos outros. Não passaram por nenhuma crise prestes-a-divórcio, o que, se calhar, até me teria dado um toque de exotismo traduzido em popularidade junto dos colegas de escola.

Em minha casa, como na casa de alguns dos meus colegas de pais mais dados à colecção dos clássicos, havia um livro chamado Contos de Grimm. Em minha casa, como na casa de alguns dos meus colegas de pais de consciência pesada, liam-se histórias ao deitar. Em minha casa, como na casa de muitos dos meus mais iludidos colegas de pais conscienciosos, liam-se os contos de Grimm às crianças, que passo a identificar: eu.
Isto de ser filha única tem as suas desvantagens, nenhum irmão que pudesse distrair o pai a ver se ele se esquecia da hora da leitura, alguém que ficasse doente a entreter e a exigir a atenção dos papões das histórias de adormecer.

Histórias de adormecer, literalmente. A trama repetia-se, só os nomes das personagens e do local mudavam; aqui tinha uma bruxa, na outra, um mago, naquela outra, uma fada. Invariavelmente, depois de uma série de peripécias, o moço ficava com a moça, independentemente do estrato social de um e de outro, e os maus eram castigados, e eu, depois de me conter naquela odisseia de escuta, imaginava que só seria feliz (não para sempre, mas pelo menos no instante em que o fizesse) se um dia conseguisse deitar as mãos àquele livro que ficava no alto das prateleiras a rir-se de mim. Aquele livro enganador que dizia que todas as histórias eram felizes para sempre. Sempre que se lia o livro o mundo era perfeito. Nunca gostei que me mentissem.

Hoje, nos duetos que por aí vejo, torno a ler os contos de Grimm, histórias felizes para sempre, sempre que namoram: com aqueles, assim como com os anteriores, bem como com os próximos, felizes sempre até durar.
Claro que também ja tive dessas histórias felizes para s.e.m.p.r.e., histórias Se Estiver Maçado Páre e Reduza o Enfado, e, por isso, foram substituídas por outras, como essas: boas, dentro do género...

Queria tanto entrar numa história do Grimm...

terça-feira, setembro 26, 2006

Faz hoje um ano II

A vida é bela
Nova segunda-feira, mais um dia como os outros.

Consegui chatear-me com meia dúzia de pessoas, ainda que elas não saibam. O poder do disfarce é fantástico. Estar com uma pessoa na mesa do café e contar-lhe todos os nossos segredos públicos até evita que nos passem um atestado de antipatia e arrogância. Quanto menor for a mesa do café, mais fácil se torna falar sobre coisas que realmente existam sem nos preocuparmos com o que os outros pensam, ou preocuparmo-nos em dar-lhes o que eles esperam ouvir de nós.

Se eu dissesse tudo o que penso, nao falava com ninguém. Quer dizer... até falava com alguns daquela mesa de café, outros não entenderiam. mas como o Homem é um animal social, que vive pelas relações que constrói e mantém, temos de manter as boas e polvilhá-las de outras indiferentes e até guardar, para crescer, as piores, autênticas molas de projecção pessoal e social.

Há dias assim, correm bem... dos maus nao vale a pena falar. nem é preciso, esses ficam...




Curioso como a mesa de café rodou, diminuiu e cresceu... Até a mesa do café e o próprio café são diferentes. Acho que até a marca do café. Eles dizem que os finos pelo menos são melhores. Dos amigos e/ou sócios do café, ficaram alguns. Para um ou outro não tenho sequer definição apropriada... Para o ano digo quantos alinham na 3ª época.

terça-feira, setembro 19, 2006

Faz hoje um ano I

Há exactamente um ano atrás estreava-me eu numa espécie de blog: o msn space. Foi assim mesmo, na altura era segunda e não terça, mas a moral é mais ou menos como a de hoje...

Blue Monday

Passamos o domingo a temer a desesperada segunda-feira para depois repararmos que não.. nada foi como esperávamos... a segunda-feira afinal nao é má:

tenho de me levantar um bocadito cedo para fugir ao trânsito ou para não me atrasar apanhando-o, mas não é má;
vou pela auto-estrada num carro com vidros eléctricos avariados e sem via-verde, o que quer dizer que a cada portagem faço stand-open-door-comedy, mas não é má;
dou três voltas ao parque de estacionamento antes de perder a paciência e deixar a relíquia em cima de um passeio, praticamente em frente ao posto da PSP, mas não é má;
chego à secretária, encontro-a carregada de documentos que não são meus, o telefone cheira a colónia barata e atendo uma chamada que é para a pessoa que esteve lá antes, e que eu não consigo descobrir de entre as tantas que lá passaram, só desta vez, a julgar pela variedade de vestígios deixados, mas não, a segunda-feira não é má;
o chefe está mal-disposto, como sempre, mas ninguém o manda escolher um clube que assume a cauda do campeonato, mas a segunda não é má;
vou almoçar sozinha e mesmo assim é difícil encontrar mesa, mas não é má;
volto para o trabalho e entre berros que saltam das secretárias ao lado, vou ouvindo algumas recusas e duas reuniões desmarcadas, o sr. silva mudou de ideias, ja não está interessado, e a direcção da clínica decidiu adiar a decisão, mas não é má;
volto para casa e como saio à mesma hora que os outros chego mais tarde do que eles, mas nao é má.

Não, a segunda não é má, é como os outros dias.

O problema é o fim de semana ser bom. Esse é que é o problema.